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[NARRATIVAS] Thaysmenia


Thaysmenia, 2016


No dia 27 de junho de 2013, estava prestes a participar de dois campeonatos, um de handebol e outro de rugby; a preparação estava a mil. Quando neste dia participei de um amistoso de handebol e tudo mudou repentinamente. Saltei para fazer o gol e a paleta do meu joelho esquerdo girou, porém ninguém imaginada a gravidade do que havia acontecido. Todos eufóricos procurando ajudar de alguma maneira, eu chorava bastante, pois sentia muita dor. E enfim lavaram-me para enfermaria, colocando gelo, mas a dor só aumentava. Então, levaram-me ao médico, chegando lá eu gritava de tanta dor. Bati um raio-x e tudo normal. Tomei remédios e já que a dor era persistente o médico engessou minha perna. Não sabia se chorava mais de dor ou do entorno da situação, já que independente de tudo não iria mais participar dos campeonatos. Enfim fui para casa, passaram-se alguns dias e retornei ao hospital, com a ressonância que havia pedido. Ele olha e me diz: “é garota, você terá uma vida normal, porém nunca mais poderá praticar tais esportes”. Naquele momento era como se o mundo tivesse desabado. Chorei como uma criança que recebe um “não” de seus pais. O tempo passou, passei um ano sem praticar esportes, o ano mais doloroso da minha vida, já que esporte é minha maior paixão. Então no final do ano passado resolvi ultrapassar essa barreira, retornei a malhar e comecei a praticar muay thai, no qual estou prestes a participar do campeonato cearense. Sendo que já me machuquei novamente, porém acredito que irei passar essa fase e alcançar aquilo que mais busco: continuar me superando dentro desse esporte, o qual sou apaixonada.

[NARRATIVAS] Iury Castro

Iury Castro, 2016

A Educação Física geralmente é vista como um tipo de recreação nas escolas, onde os alunos não levam muito a sério as aulas ou alguns professores não ministram as atividades da maneira correta, porém essa é outra questão. Como por exemplo, colocar todos os alunos em uma quadra com uma bola e deixa-los a vontade para fazer o que quiserem é a forma mais vivenciada de todos os tempos, entretanto vivenciei experiências bem diferentes que um profissional em questão transformou essa visão.

Em 2007 no ensino fundamental conheci uma professora chamada Emanuella, que tinha características encantadoras, era simpática, engraçada, alegre e com uma vontade de lecionar a ponto dos olhos delas brilharem ao entrar na sala de aula, porém a minha turma em questão seria um desafio profissional e até pessoal para ela, pois ensinar jovens da periferia e suas diversas complicações não seria uma tarefa fácil.

No início das aulas muitos conflitos foram gerados, pois quando chegava o dia da aula de educação física meus colegas apenas queriam a quadra e a bola liberadas para eles mesmos curtirem à prática de futebol, porém a professora tinha uma visão contrária a esta cultura de “rola bola” e claro que ela queria mudar tudo isso. Então nas aulas seguintes ela criou uma tabela com algumas modalidades das quais gostaria que todos tivessem conhecimento, como vôlei, basquete, handebol, atletismo e até natação por mais que na escola não tivesse uma piscina, porém a turma, ou melhor, os meninos criaram uma resistência, pois apenas queriam pegar a bola e sair chutando e chegavam até a ameaçá-la se não cedesse ao o que eles queriam. 

Então a professora resolveu trabalhar em cima dessa resistência, já que a maioria queria o futebol, decidiu organizar um jogo de futebol dentro da sala de aula, onde tinha o juiz, os bandeirinhas, os jogadores e até a arquibancada, isso para ensinar o histórico, as regras, a cultura do esporte, pois a mesma desejava dar aulas teóricas. Esse método aguçava a turma, os meninos perguntavam sobre coisas que eles desconheciam, tiravam suas dúvidas e aprendiam que o futebol era muito mais que apenas chutar uma bola. 

Com o processo bem-sucedido a professora ganhou cada vez mais a credibilidade da turma, podendo ensinar as outras modalidades na teoria e aplicando de forma satisfatória na prática, até se tornando uma verdadeira amiga, ajudando os colegas da turma com problemas familiares, sociais e com envolvimento com drogas.

Em resumo minha turma era como um time de futebol que não ganhava nenhuma partida há várias rodadas de um campeonato, onde precisava de um técnico que os orientassem como ser um atleta com resultados positivos dentro e fora do campo.

[NARRATIVAS] Ítalo Costa


Ítalo Costa, 2016


A Educação física é uma disciplina que faz parte da grade curricular da maioria das escolas, e no meu ensino fundamenta, era uma das minhas disciplinas favoritas. Como a maioria das crianças eu adorava jogar bola, e não via a disciplina como outra qualquer e sim como um momento de recreação, onde eu poderia jogar, correr, pular, se divertir ao lado dos meus amigos. E como toda criança eu odiava as aulas teóricas. “Poxa vida, tá um dia lindo lá fora professora, vamos jogar!”. O pior mesmo era quando era aula prática e chovia ou acontecia algo que impossibilitava com que fosse, daí ficávamos em sala tendo aula teórica, e na outra semana teórica de novo, pois a professora nunca compensava.

Já no ensino médio minhas experiências com Educação física foram bem diferente, eu já estava mais crescido e entendia que não poderia ser só aula prática a todo tempo, (Eu disse que entendia, não que concordava). Posso dizer que foram de certa forma proveitosas, pois com os seminários e artigos que foram a mim passados, pude adquirir alguns conhecimentos que serão bastante uteis caso seja preciso eu realiza-los, como massagem cardíaca, respiração boca a boca, primeiros socorros em geral.

Por fim o que posso dizer em minhas experiências com as aulas da disciplina de educação física é que fora proveitosas, chatas (muitas das vezes), mas a cima de tudo, essenciais, pois aprendi varias coisas sobre o meu corpo.

Obs: Eu gostava mesmo era de jogar bola.

[NARRATIVAS] Danielly Araújo


Danielly Araújo, 2016


Nunca fui muito fã de educação física, pois nunca fui boa com esportes. Nunca aprendi a jogar vôlei, basquete, futebol, na verdade eu era muito ruim, era motivo de piada, ninguém me queria na equipe, porque eu era estabanada, só tinha habilidades com palavras, apresentações, atuava, dançava, mas nada de esportes.

Só gostava das aulas teóricas, onde estudávamos a história do esporte entre outras coisas, por que eu sempre gostei de estudar as teorias quando mais nova.

Eu faltava às aulas práticas de educação física para poder participar do projeto de cinema e audiovisual que tinha na escola, lá eu me sentia incluída, lá eu produzia, atuava, maquiava, me sentia eu mesma, me sentia útil, já que em esportes eu ficava na reserva geralmente.

[NARRATIVAS] Brenda Laresca


Brenda Laresca, 2016


No ensino fundamental até o 6° ano minhas aulas eram todas na quadra da escola e se baseavam em jogar futebol e carimba, eu estava em todas as aulas, mas não jogava muito bem e sempre era a ultima a ser escolhida. No 7° ano do fundamental passei a ter aulas teóricas e práticas, mas gostava mais das aulas teóricas, pois não jogava muito bem. No ensino médio continuei tendo aulas teóricas e práticas, mas passei a gostar das duas maneiras, pois estas não eram mais resumidas em jogos e os professores sempre vinham com propostas novas.

[NARRATIVAS] Ana Paula


Ana Paula, 2013

Meus professores de Educação Física e a falta que eles não me fazem. Durante toda uma vida na escola tive cerca de cinco ou seis professores de Educação Física. O primeiro deles deu aula de futsal e futebol. O segundo deles, que chegou à escola para substituir o primeiro nos levou imediatamente até uma sala de aula convencional, nos ensinou o nome de alguns músculos, falou que daria aulas de vôlei, contou um pouco da história desse esporte, mas é engraçado porque das aulas práticas que ele deu só me recordo de futebol, futebol, futebol e futebol. 


Chegando ao ensino médio, troquei de escola, ganhei um pouco mais de liberdade. Pude escolher que esporte praticar, mais uma prisão, mas ainda sim uma prisão um pouco mais larga. Joguei handebol, ou melhor... Tentei. Não passei das primeiras aulas porque certa vez tive de fazer uma sequência de movimentos e ao invés de fazer correndo, fiz andando, não por preguiça ou indisposição, mas porque no momento em que o professor deu o exemplo, ele andou! Parou a aula imediatamente, pediu a bola, olhou para turma e voltou seus olhos para mim: “Com uma postura dessas, você desestimula o time e se for para agir assim é melhor ficar em casa.” E olhando para fila de garotas atrás de mim: “Se alguma de vocês quiser repetir isso, melhor ficar em casa.” Depois disso, me devolveu a bola. Olhei para o gol a minha frente, para as colegas atrás de mim que certamente fariam correndo, fariam sim, com certeza, depois de tão sutil ressalva do professor lógico que fariam. E do alto de meu orgulho adolescente, andei, não em direção ao gol, mas na direção do professor, entreguei a bola em suas mãos, não disse uma palavra e fui para casa. Chorei praticamente todo o caminho de volta. “Que babaca! Quanta arrogância! Para que aquilo? Para que?” Senti saudades das monótonas aulas de futebol.

Troquei de esporte, descobri o vôlei, cheguei a ser levantadora do time, mas certo dia o professor chegou e disse: “Hoje, vamos aprender rotação.” E a expert em rotação no time tem que ser quem? A levantadora! Pelo menos segundo o professor. A única rotação que eu conhecia era aquela que a gente estuda junto com a translação nas aulas de ciências e até que o conceito serviu. Mas, a aula começou a ficar extremamente chata com toda aquela cobrança de estar sempre no lugar certo, na posição certa, fazendo a coisa correta e sendo um exemplo para as outras meninas. Fui deixando de ir... Sabe onde eu acabei parando? No futsal! Ah, quantas saudades de “ziguezaguear” cones e usar coletes coloridos. Não tocar a bola e ser considerada a promessa do time pelo professor. Senti-me extremamente confortável, assim como quando fazemos uso de uma antiga maneira de pensar, um velho preconceito, uma zona de conforto. Na época eu não sabia, mas hoje sim, sei disso, da facilidade de um retrocesso. 

A lente acadêmica me fez repensar todas essas situações, a minha postura e a dos professores. Outro dia fui convidada para treinar basquete, dentro da universidade. Estávamos no aquecimento, não estranhamente correndo em círculos na quadra, quando vi uma menina se aproximar da outra durante a corrida: “Amiga, seu cadarço tá desamarrado.” Trocaram mais algumas palavras, quando o professor irrompeu em gritos que diziam mais ou menos assim: “Ei, vocês tão conversando o que aí? No dia do jogo eu quero saber se vocês vão ficar conversando. Sem conversa! Hoje nós vamos treinar forte, ouviram? Treinar forte!” Lembrei-me da aula de handebol, lembrei-me daquela maldita rotação no vôlei, mas dessa vez, continuei correndo, continuei lá, mas só até o fim do treino. Quando acabou eu só tinha uma dúvida em mente: “A que horas acontecem os treinos de futsal?”.

[NARRATIVAS] Gildevan Albuquerque

Gildevan Albuquerque, 2013

Meu colegial foi marcado por vários momentos. Em todas as matérias, as lembranças me saltam como se tivessem acontecido ainda ontem. Dentre tantas memórias, somente as de educação física não são tão fortes. Talvez por isso eu esteja aqui hoje. Grande parte das lembranças que tenho é do professor dizendo: "assinem seu nome no papel e estão liberados”.

O que mais me indignava não era o método do professor em si e sim a imagem que ele deixava para seus alunos sobre a educação física. Sempre observei isso como um contraponto das minhas expectativas. Posso não parecer “o atleta”, mas sempre puxava o "racha", mesmo sabendo que já tinha sido liberado pelo professor para ir para casa. Não minto que via esse curso como largado, aonde se formavam pessoas especialistas em "peladas". Mas meu fascínio pelos esportes e como eles faziam pessoas totalmente diferentes interagirem de forma assombrosamente perfeita em prol de um objetivo, me fez “pagar para ver” e estou a cada dia mais satisfeito com minha escolha. Como é bom se enganar às vezes.

Mesmo que eu ainda esteja cursando o 1° semestre, já sou capaz de dizer que o mundo da educação física do colegial é mínimo perante a galáxia de opções que temos na universidade e me frustra saber que, mesmo com esse leque gigante, ainda existam professores medíocres, ao ponto de dar uma aula apenas fazendo uma bola rolar na quadra. Lógico que estou falando de uma experiência própria e que não estou generalizando. Porém, venhamos e convenhamos, essa história deve ser bem parecida com a de muita gente que possui o mesmo pensamento que o meu.

O fato é que devido a tais profissionais, o professor de educação física acaba sendo visto como inferior aos docentes das demais matérias, e como gosto de provar o contrário sempre, cá estou eu no curso, descobrindo mais do mesmo, o porquê do mesmo. Absorvendo e refletindo sobre e extraindo aquilo que sempre quis saber sobre o curioso mundo da educação física. Fascinando-me cada vez mais com o poder e a capacidade do corpo do ser humano.

[NARRATIVAS] Lara Sampaio

Lara Sampaio, 2014

A educação física sempre esteve presente na minha vida, embora não tenha sido tão notada. Na infância vivi ótimos momentos de lazer e recreação, na escola lembro-me que tive vários professores de outras disciplinas fazendo papel de educador físico, davam-nos uma bola e nos mandavam brincar de carimba, bandeira e outras brincadeiras mais voltadas para a recreação. Quando fui para uma escola maior à educação física era realmente com professores específicos de educação física, lembro que as aulas eram divididas e se resumiam a quatro esportes durante o ano, e foi assim do meu 7° ao 2° ano do ensino médio, pratiquei sempre os mesmo esportes. Passei a praticar poucas aulas práticas e comecei a fazer algumas aulas teóricas, pois as práticas estavam se tornando monótonas e pouco divertidas, quer dizer nesse período um ou dois professores no máximo tentavam fazer algo lúdico, era difícil controlar tantos alunos, os meninos na sua grande maioria só queriam a bola e a quadra e não ligavam para os fundamentos ou brincadeiras e as meninas também na grande maioria achava ótimo não participar, afinal pra quê fazer uma atividade sem graça que “não traria benefício algum” e só servia para suar o uniforme e voltar para a sala de aula fedendo e cansada para assistir mais algumas horas de aula? Os esportes eram sempre: Basquete, Handebol, Futsal e Voleibol, necessariamente nessa ordem. Com essa divisão, passei um bom tempo da minha vida acreditando existir apenas esses quatro esportes e não via a possibilidade de praticar e conhecer outros. No 3° ano do ensino médio quando fui escolher a faculdade e o curso que iria fazer não me imaginava na educação física, nesse mesmo ano no colégio não existia essa disciplina pros alunos pré-universitários. Fiz o ENEM e coloquei o curso de educação física nem eu mesmo sei por que, e pensando que não iria concluir. Quando começou as aulas vi que eu iria gostar e desisti de trancar o curso, com o passar dos semestres percebi que era o que eu tinha e tenho que fazer e as possibilidades da educação física são muitas. Com o passar dos semestres descubro e duvido de muitas coisas e pretendo continuar assim. As vivências, as pessoas, as possibilidades são encantadoras. As memórias que tenho até hoje me fazer querer mais desse curso, dessa área tão humana e saudável que é a educação física.

[NARRATIVAS] Isabelle Costa

Isabelle Costa, 2012

Se eu tivesse que falar as memórias de minha adolescência certamente eu representaria uma tela em branco como a maioria das crianças, infelizmente, onde a Educação Física como componente curricular não encontra lugar relevante.
Hoje até acredito que existe um mínimo respeito ao falar da prática de Educação Física, sob diversos discursos, como o da criança necessitar gastar energia, melhoria da qualidade de vida ou mesmo para não se tornar uma criança obesa. Muitos discursos, pouca objetividade.
Na minha época era pior, valia mais a pena estar dentro de sala de aula “exercitando a mente” do que exercitar o próprio corpo. Desenvolvimento motor, motricidade, pareciam palavras distantes do dicionário de meus pais.
Um fato curioso é que facilmente eu conseguia arrancar de meu pai um atestado médico, impossibilitando minha prática de exercícios físicos sob a desculpa de possuir constantes enxaquecas. Ninguém sequer perguntava por que essas enxaquecas só prejudicavam a Educação Física, as outras aulas não.
Convém falar que esse papel irrelevante da Educação Física na minha história teve diversos fatores desestimulantes como o horário das aulas ser mais cedo que o habitual, a prioridades sempre ser dada ao “raxa” dos meninos para depois as mulheres timidamente se expressar, porém é daí que vi algo interessante para extrair e apresentar para vocês.
Lembrei que nessa época iniciou-se meu contato com outros corpos já que as roupas costumavam ser mais curtas e mais coladas do que as horrorosas fardas. Eu sempre tive um corpo largo, pernas grossas e meus seios foram os primeiros a crescer, e como isso me envergonhava e ao mesmo tempo em que sentia que algumas meninas invejavam meu primeiro sutiã, sentia vergonha de ser diferente. Sem contar que os primeiros sintomas da adolescência começavam a aparecer, o clima entre os meninos e meninas não era mais o mesmo e sentia pela primeira vez a presença se um elemento tão citado ao longo de nossa construção; a busca da autoestima.
Como depois das aulas de Ed. Física nós meninas deveriam tomar banho para reiniciarmos as aulas, veio outro elemento tão tenebroso como importante de ser tratado; a Nudez. O próprio corpo de várias meninas passava a ser um grande inimigo. Enquanto aquelas que gostavam de si e gostavam de sua imagem sentida e refletida, outras simplesmente com vergonha de si, iam abandonando as aulas, e o número de alunos ia ficando cada vez mais resumido.
O que posso concluir é que o próprio desrespeito que damos as aulas de Educação Física reflete diretamente na construção de nossa imagem, da autoestima e de como lidamos com nosso corpo. Diante de tantas disciplinas quem se importa em explicar e dialogar sobre as mudanças e impressões sobre nós mesmos?
Acredito que a Educação Física como disciplina é essencial no sentido de educar o corpo físico, mas também ensinar sobre esse corpo, para que o conhecendo e também suas particularidades e mudanças possamos nos aceitar e respeitar os outros.

[NARRATIVAS] Beatriz Maia


Beatriz Maia, 2013


          O que lembramos quando ouvimos a expressão ‘Educação física escolar’? Bem, posso dizer, enquanto graduanda em Agronomia e ex-aluna de educação física nos tempos de colégio, que não mais que partidas de futebol, vôlei ou carimba.
          As aulas ocorriam às sextas-feiras. Íamos para o colégio já com o traje apropriado e com a felicidade de que, pelo menos, durante 50 minutos, extravasaríamos a vontade de correr acumulada da semana. Já estava certo: meninas jogavam vôlei e meninos, futebol, com a desculpa de que meninos tem força demais para jogar com meninas, frágeis e sem muitas habilidades com a bola.
          No ensino médio, a professora tentou inovar um pouco. Era dita como chata, pois não podíamos mais jogar a nosso bel prazer. Nosso instrumento não era mais só a bola, agora havia cones, bambolês e circuito de obstáculos. Foi um Deus nos acuda quando a pobrezinha resolveu passar um seminário valendo nota e com perigo de ficar para recuperação em Educação Física!!
          Posso dizer que em pouco mais de uma semana conhecendo mais sobre esses/as futuros/as profissionais que não esperava encontra-los/las debatendo sobre juventude, gênero, sexualidade ou sobre a influência que ferramentas midiáticas têm nos dias atuais sobre a sociedade. Logo eu, eu.. que me fazia de entendida por já debater também sobre isso e sobre outros temas, porém tendo uma visão restrita e corporativista dentro do meu Curso e da minha federação. Por que é sempre mais fácil debater com quem é do nosso time!

[NARRATIVAS] Alexandra Nobre


Alexandra Nobre, 2012


          Lembro-me de uma primeira infância com algumas brincadeiras recreativas, mas nada tão sério, pois não realizávamos as aulas com um(a) professor(a) de Educação Física propriamente, pois eram as próprias professoras pedagogas que adotavam e trabalhavam todas as atividades conosco em sala e fora da mesma. Eu sempre gostava do momento em que diziam que era recreativo, pois era sempre após as aulas em sala e recordo-me ainda, que sempre depois da agitação tinha o momento de relaxar, ou seja, a volta à calma, acontecia isso também depois de todo recreio, todos os dias para retornarmos às aulas do segundo tempo.
          Enfim, no ensino fundamental tive um professor de Educação Física, ele era o único da escola. Não recordo de nenhuma aula teórica e, realmente, não tivemos nenhuma aula teórica com o mesmo. Nas aulas práticas alguns elementos básicos estavam sempre presentes, como o futebol para os meninos, o vôlei ou a carimba para as meninas e, assim se faziam as aulas. Poucas eram as meninas que se interessavam pelo futebol, e quanto ao vôlei e à carimba, alguns meninos gostavam, mas eles tinham a maior referência no futebol, notava-se que era como se tivessem uma forte necessidade de que se fossem homens teriam que jogar o futebol, para se afirmarem como tais.
          A maioria das aulas no fundamental era tida pelos alunos como uma aula qualquer, pois não existia aquela expectativa sobre uma aula diferente e inovadora da nossa parte, pois o professor sempre liberava a bola, e disso se faziam as aulas. E sempre acontecia a mesma coisa, os meninos iam logo para a quadra de futsal e se apoderavam do jogo sem dar sequer alguma oportunidade para as meninas.

[NARRATIVAS] Thallysson Jardel


Thallysson Jardel, 2012


          As aulas de Educação Física eram ministradas em aulas práticas e teóricas – quando tinham – sobre esportes coletivos. As aulas da disciplina supracitada só iniciaram a partir da 5ª série (“parece” que o movimento antes dessa faixa etária é “desnecessário”), pois até a 4ª série quem ministrava as aulas eram as pedagogas (não me recordo de nenhum momento das minhas aulas até esse período). Nas aulas teóricas eram tratados fatos históricos sobre como surgiu cada esporte, seu desenvolvimento, regras, características, ou seja, todos deveriam sair árbitros e historiadores da modalidade. Não que eu seja contra o conhecimento das regras, mas da maneira como era abordado não fazia muito sentido, isso com a visão que tenho atualmente como estudante de graduação em Educação Física. Como os fatos históricos de cada modalidade poderiam ter sido relacionados com os acontecimentos da época.
          Já nas aulas práticas tudo era “maravilhoso” (sob o olhar limitado do passado), pois íamos para as aulas de Educação Física apenas praticar esporte, e como tinha uma bagagem motora já considerável sempre estava entre os destaques em todas as modalidades (não que eu fosse o melhor em todas, mas dava pra enganar e ser sempre disputado para compor o time de quem tirava os mesmos). Meninas e meninos em horários distintos, como era maravilhoso por um lado e ruim por outro. Ruim pelo fato de não poder dar uma paquerada, mostrar para elas os meus dons e dotes físicos, corporais, etc, e maravilhoso porque elas não iriam nos atrapalhar, pois a única coisa que “sabiam” fazer era jogar carimba e olhe lá.
          Participei das aulas de Educação Física até começar a representar o colégio na seleção de futsal (não me recordo de [...]

[NARRATIVAS] Matheus Mariano


Matheus Mariano, 2012


          Se me perguntassem sobre as minhas lembranças das aulas de educação física, ou qualquer coisa relacionada ao assunto, antes de entrar para o curso de licenciatura em educação física com certeza não escreveria sobre a memória que narro neste texto, mas foi a que mais me fez refletir, por isso decidi compartilhá-la.
          Quando eu era bem novo, entre a alfabetização e a 1º série, no meu colégio teve uma festa do Dia das Crianças, com várias atividades recreativas. Entre essas estava a que me marcou.
          Naquele tempo estudava em uma escola bem pequena, com pouca infraestrutura, mas as aulas dos professores valiam muito. Alunos e professores eram muito próximos, inclusive, eu era muito próximo da professora de português, pena que não consigo lembrar o nome dela. Naquele evento já era quase meio-dia quando ela propôs um concurso de dança. Estávamos com fome, cansados e com vontade de ir embora, no entanto, ela derrubou todas as probabilidades de fracasso e fez tudo dar certo.
          Já li textos sobre dança na escola e sei das dificuldades dos professores para introduzir essa matéria no currículo escolar. Porém, não aconteceu nenhum empecilho naquele dia. Minha professora apenas disse para formarmos pares e que dançássemos ao som da música. O par que dançasse melhor, segundo o julgamento dela, ganharia chocolates. Lembro que ninguém ligou se os pares eram formados, necessariamente, entre meninos e meninas, só se juntaram com quem se sentiam mais à vontade. A pluralidade se fez naturalmente.
          Os pares foram formados, não ouvi nenhum menino reclamando e não vi nenhum deles inibido com a dança, apenas cada um dançava como queria com o seu par. Foi simples, contudo uma grande lição para mim.

[NARRATIVAS] Juliana Barros


Juliana Barros, 2012


          Mais um ano começa… E mais uma vez devo enfrentar a tal fila pro atestado. Não gosto de esperar, mas é necessário. Preciso saber se farei Educação Física ou não. Espero na fila e depois de um bom tempo escuto: – Próximo! Entro na sala e novamente vejo aquela senhora gorda me fazendo perguntas e aferindo minha pressão. Penso: Como é possível uma pessoa tão gorda, que aparenta nem se preocupar com sua própria saúde me fazendo indicações do que devo ou não fazer?… Sou muito nova, talvez meu questionamento seja bobo e incoerente. Mas confesso que essa situação não me agrada.
          Aprovada, foi o que ouvi daquela senhora. No meu pensamento só me vinha uma coisa: ainda bem que acabou. Detesto esse exame. Detesto ser avaliada. E estou morrendo de fome. Não teria outro horário pra isso?! Ah… Ainda bem que acabou! Terei que fazer Educação Física. Acho até bom, pois gosto de esportes, atividade. Vejamos o que vem por aí.

[NARRATIVAS] Caio Fernandes

Caio Fernandes, 2012


          Havia um tempo que meu ginásio era de buraco, pedra, areia e lama. Minha bola era de tampa de refrigerante, ou várias meias juntas em formato redondo, bola de papel, ou até mesmo quando chutava o vento aquilo tornava-se uma bola. As atividades “lúdicas” eram brincadeiras que envolviam perigo e habilidade, como trepar em uma árvore, pular um muro, escorregar por uma escada.
          É interessante perceber como as adversidades trazem consequências boas, como por exemplo: Quem praticou uma atividade por um período da sua vida em um terreno de má qualidade, quando utiliza um espaço bem estruturado geralmente tem mais facilidade de se adequar.
          Refletindo e relembrando o passado, chego à conclusão que temos que vivenciar os piores espaços, participar das brincadeiras mais perigosas e desafiadoras, adaptar, criar novas possibilidades para substituir um material que seria necessário, e se arriscar sem o menor pudor de se quebrar todinho, para ter experiência que no futuro fundamental será.

[NARRATIVAS] Fidel Machado


Fidel Machado, 2012


          Como já era de costume, passado alguns meses, ao final de todo Campeonato Cearense de Vôlei era realizada uma festa de premiação de todos os campeões, revelações, melhores atletas enfim, uma cerimônia cheia de troféus e medalhas. E no ano de 2005, eis que inicia o Campeonato Cearense. Animação. Ansiedade. Desejo. Tá, confesso que era um sonho sagrar-me junto a equipe campeão cearense.
          Piiiiii. Iniciavam as partidas. Batalhas suadas, vencidas e comemoradas. Cada noite, mentalizava por horas o que havia errado nos jogos anteriores. “Mão para fora. Vira no corredor. Acelera o braço. Espera mais. Invade. Deixa de ser mole. Bate essa bola.” As palavras do treinador ninavam o meu sono.
          Apito após apito o sonho foi se aproximando, tornando-se algo palpável, tangível e real. E no final de 2005, naquela festa tão esperada o presidente da federação anuncia: Colégio 7 de Setembro campeão estadual mirim. Subir no palco e receber a medalha foi uma sensação indescritível. A realização de um sonho de menino. E vejam vocês que surpresa. Ao final do anuncio dos campeões dar-se início as premiações individuais, fundamentos técnicos, categoria por categoria. E para sacramentar a noite na categoria mirim Fidel Machado de Castro Silva é eleito o melhor atleta do estado do Ceará. Que momento marcante. Que noite inesquecível.

[NARRATIVAS] Deuziane Brito


Deuziane Brito, 2012


          Praticamente toda minha vida escolar foi no Colégio da Polícia Militar do Ceará. Aprendendo não só as disciplinas básicas, mas certas regras da conduta militar. O ginásio do colégio, que pode ser invejado por qualquer ginásio de escola privada, não era exclusivamente para as aulas de Educação Física ou para treinamento das seleções, existiam algumas solenidades que eram realizadas ali, obrigatoriamente a solenidade do 3º ano de Ensino Médio.
          Mas eu to aqui pra falar das aulas de Educação física, eu entrei neste colégio na 2º serie do ensino fundamental nesse período as aulas de educação física era no contra- turno, ou seja, se você estudava pela manhã, fazia educação física à tarde. Nós podíamos optar por uma modalidade ou esporte, nesse tempo até tinha balé e Karatê.
          Durante dois anos fiz vôlei e depois mais dois anos de natação. Depois eles resolveram mudar esse sistema, quem me dera se tivesse sido pra melhor, ate que a intenção era boa. A partir da 6º serie a educação física seria dividido no ano, por modalidades, a cada dois meses um esporte diferente. Num sei por que, mas eu não lembro de ter passado por futsal ou basquete. E também passou a ser no mesmo turno das aulas regulares.
          Quando chegou o ensino médio desandou foi tudo, os professores faziam aquele papel de “jogar a bola”, só se davam o trabalho de dividir a quadra, de um lado futsal pros meninos e de outro carimba ou aquele “raxa” de vôlei para as meninas. Só vim a ter uma prova teórica de Educação física no 3º ano do ensino médio, onde a gente nem era obrigada a participar das aulas. Nossas provas práticas eram testes de resistência [...]

[NARRATIVAS] BAÚ DE MEMÓRIAS: uma jornada, alguns objetos e a Educação Física em mim


Por Klertianny Teixeira do Carmo, 2014

Acordei! (bocejo) Mas que horas são? Ainda está escuro. O relógio marca três  horas da madrugada. Preciso dormir mas meu corpo não me deixa sossegar. Engraçado! Acordei com uma sensação diferente, a única coisa que me lembro foi uma pequena parte do sonho que tive antes de despertar, eu estava chorando e sorrindo enquanto fechava um grande baú.
Geralmente, sonho todas as noites e gosto de lembrar no dia seguinte, quer dizer, faço questão de lembrar (risos). Aprendi com minha avó materna que para lembrar de um sonho é só não passar a mão na cabeça assim que acordar, foi o que fiz, tinha certeza que esse sonho merecia ser lembrado. No entanto, fiquei em dúvida se me levantava ou não, então, decidi fechar meus olhos passei por volta de um minuto com os olhos fechados, totalmente inerte na cama, sem parar de pensar. Olhei para o lado e para o outro tentando achar explicação para o que eu sentia, várias perguntas começaram a me inquietar: “Que baú era aquele?”, “Porque estava chorando?”, “Porque eu ria ao mesmo tempo?”. Resolvi então, fechar os olhos e tentar me conectar com aquele momento que me fizera perder o sono.  
Eis que fecho os olhos e me sinto sendo transportada para um outro lugar.
Estou num lindo lugar! Um enorme jardim, cheio de tulipas, orquídeas, gardênias, crisântemos, e muitas outras plantas que não conhecia, mas que davam vida a um lugar cheio de diversidade. Era verão. Conseguia ouvir o canto dos pássaros, grilos e cigarras. Estava tão extasiada com as maravilhas da natureza que calei e fiquei contemplando tudo. O riso abobalhado não saía de minha face, tudo aquilo era inexplicável.
Como um passe de mágica surgiu a minha frente uma pedra, que tinha o formato de um pé, por curiosidade coloquei meu pé em cima e ele se encaixou de tal maneira que achei que tinha sido feita sob medida para mim. Logo após surgiu uma outra pedra e assim foram surgindo muitas outras, formando um lindo e longo caminho.
Aos poucos, um lindo lago começou a se formar por entre as pedras, quis olhar para ver o quanto era possível enxergar através dele, eis que quando olhei para o lado direito me vi como eu era naquele instante adulta, cabelos longos e grisalhos, pele envelhecida pelo tempo, boca ressecada e olhos expressivos e curiosos, vestida com meu pijama predileto. Então, resolvi olhar para o lado esquerdo, eis que quando olhei me vi mudando de fisionomia passei por todas as fases de minha vida: infância, adolescência e vida adulta. Meus olhos se encheram de lágrimas. Mesmo assim resolvi ir em frente, queria chegar do outro lado, então corri. Ao mesmo tempo, pensei sobre tudo que tinha acontecido até aquele momento, cheguei à conclusão que estava sendo guiada, mas sem saber para onde. Não sabia o destino, mas fui. Numa certa parte do caminho havia uma pedra diferente que tinha o desenho de dois pés juntos diferentemente das outras, parecia indicar que o caminho tinha chegado ao fim, no entanto, não havia nada a frente. Quando coloquei os dois pés e senti seu encaixe perfeito, surgiu na minha frente um muro feito de trepadeiras, como se fosse uma miragem no deserto. Havia uma porta e sua fechadura não era convencional, não havia maçaneta e muito menos uma chave. Olhei ao meu redor e não sabia como faria para abrir aquela porta. Resolvi sentar na pedra e pensar um pouco, deixei a água molhar minhas pernas e olhei novamente para a porta.
Que estranho! A fechadura desceu. O que isso quer dizer?
Enquanto as perguntas me envolviam, uma linda borboleta apareceu e pousou diante dos meus olhos, na ponta do meu nariz, isso foi tão rápido que não pude contemplá-la... algo mágico havia acontecido naquele instante. Levantei sem tirar os olhos da porta e percebi que a fechadura se movimentava conforme meu corpo, ou partes dele, quando mudava de posição. Rapidamente escutei um eco que dizia: “Eu sabia que você conseguiria! ”.
Sem entender fiquei buscando identificar de onde vinha aquela voz e, outros sons surgiram quase que ao mesmo tempo: “Prepara, vai”; “Você não pode mais fazer as aulas de Educação Física”; “Manda a bola. Aqui, aqui, tô aqui”; “Vai, vai, vai (pá – o som de um corpo caindo no chão após um tropeço). Caiu? Levante-se e tente de novo.”; “(som da corda batendo no chão) Um, dois, três, quatros... só vou parar quando chegar aos trezentos pulos”; “Vai errar, vai errar, vai errar!”.  
Os sons de repente cessaram e mais uma vez me pus a refletir, o que isso tudo queria me dizer?
Por um instante, sorri e as lágrimas começaram a cair.
Eureca, entendi! Já sei como fazer a porta abrir.
Parei meu corpo e decidi que ia movimentar somente um dedo. Fiz a fechadura se movimentar formando duas letras o ‘E’ e o ‘F’, mas de uma maneira que elas se juntassem e formassem uma coisa só, formei dois quadrados um em cima do outro, o ‘F’ foi desenhado de forma espelhada. Essa escolha não foi aleatória foi a junção das pistas. O reflexo do meu corpo no lago tanto do lado direito como no lado esquerdo me mostravam os diversos ‘eus’ até chegar no eu daquele instante. O E foi feito conforme meu reflexo no lado direito do lago, tal qual o formato desta letra, tal qual eu era refletida, tal era a educação do meu tempo – sem vida. O F foi feito conforme meu reflexo no lado esquerdo do lago, tal qual a mudança do meu corpo, tal qual a evolução e as possibilidades que tinha vivenciado em cada fase de vida.  Os sons indicavam os momentos marcantes da Educação Física na minha trajetória e a síntese de tudo isso eram as letras E e F.
Com isso, a porta se abriu.

MÉMORIA 1 -  PREPARADA? ENTÃO, VÁ.

Olhei para frente e vi um objeto num canto, ele brilhava refletindo os raios solares. Caminhei até o objeto e o peguei. Naquele instante, escutei o seguinte som: “Prepara, vai”. Mais uma vez a mágica volta a acontecer. Na parede a minha frente surgiu uma espécie de projeção, um filme. Uma pequena piscina com seis crianças. Três blocos de saída com três raias bem definidas e três crianças se organizando para saltar. No lado oposto estavam as outras três crianças juntamente com o professor de natação que disse: “Todos prontos? Prepara, vai. ” Aquilo era uma competição. Quando escutei a última palavra ‘vai’ fechei os olhos e senti meu corpo sendo envolvido por aquele instante. Eu estava na raia dois, podia sentir a contração dos músculos no salto, o deslizar do corpo na água, o início das pernadas, a primeira braçada, a abertura dos olhos debaixo d’água, a alternância dos braços para respirar na hora certa, até mesmo a consciência de que precisava otimizar o tempo para chegar mais rápido, decidi então, não respirar ir direto já que tinha noção daquele espaço e faltava pouco para chegar ao outro lado. A imersão foi total. Não conseguia ouvir mais nada, a não ser meu próprio desejo de chegar logo ao outro lado. Enfim, cheguei. Senti o toque na borda da piscina e rapidamente emergi buscando ter a certeza que havia chegado. (Tum,tum. Tum, tum. Tum, tum. – coração acelerado) A última coisa que escutei foi mistura do som do meu coração com as palavras do professor “Parabéns, você ficou em primeiro lugar, essa é a sua medalha. ” Abri os olhos e olhei para a medalha que estava nas minhas mãos. Coloquei no pescoço e sai pelas relvas do labirinto.

MEMÓRIAS 2 – AS MEDIDAS DA DESILUSÃO

Pensei em voltar para porta mas ela não estava mais ali e nem aberta. Fui em busca de outros caminhos. Quando olhei para todos os lados e vi vários caminhos não sabia o que fazer, segui o meu sexto sentido e fui.
Numa outra parte deste grande lugar que mais parecia ser um labirinto natural, uma coruja estava parada quando sentiu minha presença bateu asas e voou. Fui até aquele lugar de onde ela se retirara. Ali o sol não incidia como deveria, era mais escuro e tinha dois objetos no chão que só podiam ser percebidos se eu chegasse mais perto. Os objetos eram uma pequena balança, que mensurava peso e altura, e um par de óculos com lentes embaçadas. Até ali nada fazia sentido, até que escutei o seguinte som: “Você não pode mais fazer aula de Educação Física”. Fechei os olhos e imediatamente, fui levada para um corredor da escola onde fiz minha quarta série, eu estava numa fila esperando para ser avaliada pelo professor de Educação Física, então, ele fala “Qual seu nome? ”. Eu timidamente respondo: “Klertianny Teixeira do Carmo”. Ele diz: “Suba aqui, preciso saber seu peso e altura. ” Depois, explicou-me o movimento que queria que eu fizesse, eu tinha que ficar em pé e depois descer o tronco para frente buscando pôr as minhas mãos nos meus pés para que ele pudesse olhar para a curvatura da minha coluna. Ele pediu que levantasse um pouco a blusa da farda para que pudesse ver minha coluna, levantei um pouco e simplesmente ouço o professor dizendo para a coordenadora “Ela tem escoliose e não pode fazer Educação Física, dê só uma olhada”. A coordenadora diz: “Deixe-me pôr os óculos. Realmente professor você está correto. ” Depois que fui liberada segui no corredor até minha sala. Havia ficado tão triste que não queria chegar logo em minha sala, parecia que tinham arrancado um pedaço de mim. Cheguei na sala, sentei e baixei a cabeça na minha mesa. Queria chorar mas não podia. Um amigo que sentiu o que estava sentindo chegou até minha cadeira e falou “Eu também não vou mais fazer Educação Física, não é só você”.  A vontade de chorar e sair dali só aumentava. Era o meu primeiro ano naquela escola que mais parecia uma gaiola, tinha pouca iluminação, regras absurdas, enfim, naquele ano perdi o que mais amava, a sensação de liberdade que as aulas de Educação Física me proporcionavam.
Uma semana após aquele dia fatídico passei perto da quadra e vi tantas pessoas brincando e me perguntei “Será se tem que ser assim mesmo? ”. Automaticamente, abri os olhos e voltei a obscuridade daquele ambiente que antes era fascinante pelas boas lembranças e pela beleza natural, mas que naquele momento perdera todo seu encanto, pois me fizera reviver um dia triste da Educação Física na minha vida. Resolvi então, me levantar e sair de perto daquele lugar e daqueles objetos, pois tinha certeza que muitas outras coisas boas tinham acontecido após aquele dia. Limpei minhas lágrimas e automaticamente aquele lugar escuro se abriu para os raios do sol, não era mais o mesmo, afinal, nem eu. Deixei os objetos ali e segui meu caminho.

MEMÓRIAS 3 – O TAL DO ESPIRI-BOL

A minha a frente, numa outra parte deste grande lugar avistei um chão diferente que não era formado por plantas mas por areia de praia e um outro objeto por cima, uma bola de espiribol com uma corda, corri para pegá-la e quando a toquei escutei o seguinte som: “Para brincar aqui tem que ter força para bater na bola”.  Era voz de um colega que fez a quinta série comigo, Diego. 
Fechei os olhos e vi o dia que ele me mostrou como jogar. Era hora do intervalo, às 15:30h, não favorecia qualquer prática pois o pátio não era coberto mas mesmo assim brincávamos muito. Era meu primeiro ano estudando a tarde. O intervalo tinha alunos do ensino fundamental II como alunos do ensino médio, uns com mais força que outros, uns com mais “jeito” que os outros.
Diego estava sozinho próximo ao mastro do espiribol, cheguei perto e outros garotos também, todos queríamos jogar. Fiquei observando até que disse, “ a próxima é minha”. Lembro-me bem da cara que Diego fez, quando eu disse isso, era como se dissesse assim para mim: “Você não tem força para jogar isso” mas acabou me explicou rapidamente como fazia: “Para jogar aqui, tem que ter força para bater na bola. Quando a gente bate, ela dá a volta nesse mastro e quem está do outro lado não pode deixar ela fazer seu espiral completo ao redor do mastro, pois se não perde a vez. ”
Na minha primeira tentativa senti minha mão batendo totalmente errada na bola, não conseguia colocar meu corpo numa posição favorável, bati várias vezes no pino que segurava a bola na corda, até que consegui acertar, fiz a bola fazer um espiral rapidamente e, então, me empolguei. Tentei bater conforme havia batido anteriormente, e tentei outras maneiras também. Descobri outras formas de fazer ela ir mais alto. Chamei outros colegas para brincar. Nesse dia ri muito, até da cara de surpresa de Diego! (risos)
Abri os olhos e voltei ao meu jardim labiríntico. Pensei sobre aquele lugar e como o professor de Educação Física nunca tinha usado aquele jogo dentro de suas aulas de Educação Física. Simplesmente suas aulas se reduziam a correr, fazer polichinelo, abdominais e pronto, às vezes tínhamos um jogo de futsal.
Enfim, peguei a bola de espiribol e sua corda juntamente com um punhado de areia e sai.

MEMÓRIAS 4 – OS ESPAÇOS QUE AFETAM

Andando por entre aquelas paredes parecia estar envolvida numa grande trama verde que nunca teria fim, já que a cada novo ambiente encontrado um novo objeto surgia. Resolvi ir pegando cada um, não importando seu tamanho e nem mesmo a história que lhe envolvera em minha vida. A cada toque uma frase ecoava e isso me deixava muito feliz.
Peguei a bola de futsal o sons que ecoavam dela eram “Amanhã teremos nosso primeiro jogo contra outro time que treino ” – meu professor de Educação Física marcando nosso primeiro amistoso; “Manda a bola. Aqui, aqui, tô aqui.” – a minha amiga Aline pedindo passe, esse foi meu primeiro passe que resultou num gol; “Futsal não é para meninas.” – essa foi a frase de meu pai, numa conversa com minha mãe, dizendo o motivo pelo qual me tiraria do time de futsal na quinta-série.
Peguei um conjunto de fotos de quatro quadras poliesportivas que tive o prazer de jogar e seus respectivos sons enquanto as tocava:
Foto da quadra do Colégio Agapito dos Santos - “Você joga em algum time? Pois deveria, você joga muito bem.”; “Você deveria fazer um teste para entrar num time.” – um conhecido chamado Welton me surpreendeu dizendo que jogava bem e depois de dois anos rachando juntos me fez fazer um teste de seleção para entrar num time de um clube.
Foto da quadra da Universidade Estadual do Ceará - “Sai do meio, porque você não vai conseguir pegar essa bola.”  – um grande amor que aconteceu após uma bolada de um saque viagem na cabeça, o mundo girou mas ganhei a aposta, não deixando a bola cair no chão, além de um lindo romance.
Foto da quadra do Colégio Evolutivo (sede Regina Justa) – ouvi o som da minha respiração tão profunda, meus olhos estavam fixos para a posição que queria sacar, já que tinha que acertar cinco saques em cada. Esse era o momento em que só existia EU e mais ninguém; “Vai errar, vai errar, vai errar!” – a primeira vez que ouvi uma torcida falando coisas ruins para me desestabilizar na hora do saque.
Foto da quadra do Colégio Lourenço Filho (sede central) – “Faça o seu máximo em todas as atividades quando não conseguir mais fale.” – essa foi a frase do meu treinador quando fui fazer meu primeiro teste para entrar numa seleção. Algo que me recordo muito bem desta bateria de atividades foi a última já não conseguia mais andar, minhas pernas não respondiam e eu tinha que dar tiros a partir da linha dos três metros até o final da quadra de vôlei. Do outro lado, havia uma ex-atleta jogando a bola quase rente ao seu pé para eu pegar. Nesse momento, eu já estava quase sem ar, peguei umas quatro bolas até que na quinta a dor tinha tomado conta de mim, eu parei tentando com total falta de ar e disse “Eu não consigo mais”, nesse instante a única certeza que tive era que tinha feito meu melhor. (Inspiração e expiração lenta)
Eu sabia que você conseguiria! “ – meu primeiro jogo atuando como líbero titular, já havia errado muito, os saques dos adversários estavam sendo em mim e eu só errava, pedi para sair mas meu treinador não fez isso, acabei tomando coragem para enfrentar a situação e revertemos o jogo. Quando a partida terminou, cai no choro, e meu treinador veio bem próximo a mim e disse “Eu confiava em você por isso não lhe tirei, bastava você confiar em você.” Essa foi uma lição que levei para tudo em minha vida;  
Sem palavras para descrever tantas emoções. Os sons de cada esporte ainda ecoam dentro de mim, sempre que me deparo com alguém praticando-os ou com esses lugares.
E assim, voltei a caminhar.

MEMÓRIAS 5  - POR UMA VIDA DE EXPERIÊNCIAS

Enquanto caminhava sentia que os objetos que estava carregando eram muitos e cada um tinha um peso em minha vida, não o peso do próprio objeto mas o peso de todas as emoções sentidas. Por um instante, sinto uma forte ventania invadindo o labirinto e com ele muitas folhas, diversas e rabiscadas. Era a minha letra escrita nesses papéis.
Mas como esses papéis vieram chegar aqui?
A ventania parou, havia papel para todo lado. Queria saber de onde eles vieram.
Dali! Um lugar iluminado por luzes elétricas, havia uma cadeira e uma lousa branca, os papeis vieram da cadeira. Quando cheguei mais perto e toquei na última folha em cima do braço da cadeira, fechei meus olhos e fui levada para minha sala de aula. Diferentemente de todos os outros objetos, nesse eu não tinha escutado nenhum som ecoando.
Estranho!
Andei pela sala esperando ouvir algum som, mas nada. Então, resolvi olhar melhor para todos os lados. De repente, surgiram alguns objetos. Uma bicicleta de cor azul e acessório amarelos; um par de patins azuis; uma corda de plástico; um par de chinelas velha; uma garrafa cheia de bilas; um pião; uma fita cassete do grupo “É o tchan”; um pacote de sabão em pó e uma bandeira presa numa chinela.
Simplesmente eu começo a chorar, pois minha infância estava diante dos meus olhos. A bicicleta que aprendi a andar; o patins que me gerou muitas marcas rochas nos joelhos; a corda de elástico de uma amiga da rua, lembro-me bem do dia que tinha dito que ia pular até chegar os trezentos pulos (risos) e minha avó me dizia assim “Pular corda dá varizes menina, pare de pular.” ; um par de chinelas velha que usava para brincar com bicicletas que não tinham freio, elas serviam como freios; a garrafa de bilas era do meu irmão, gostava de jogar mas ele poucas vezes deixava, às vezes quando ele saia eu jogava sem ele saber; o pião, foi algo que tentei aprender e não gostei muito pois quase bateu na cabeça de um menino na rua; a fita cassete do grupo “É o Tchan” era uma música que sempre dançávamos em casa e quando se juntava as meninas da família na casa da vó; o pacote de sabão era usado para lavar o banheiro da casa da minha avó, como era grande a gente jogava muito sabão no chão e ficava escorregando de uma lado para o outro, até a vó perceber e vir brigar com a gente; a bandeira presa na chinela, era um jogo que tínhamos no nosso bairro, todos se juntavam para brincar até os adultos, fazíamos dois times e quem pegasse sua bandeira no lado adversário e levasse para o seu lado vencia. Como não tínhamos bandeira usávamos sempre a chinela ou qualquer coisa que desse. Isso era muito divertido!
Continuei rindo e olhando para aquela sala que não parecia ter fim. Por entre as inúmeras cadeiras encontrei dois cocares indígenas; um vestido azul parecido com de uma princesa da Disney cheio de pedras brilhantes; um arco e flecha pequeno; um símbolo escrito “Grupo Oré Anacã”, ao mesmo tempo os sons de aplausos, agogôs e maracás ecoavam.
Esses objetos me lembravam o tempo que passei no grupo de dança popular na universidade, visitei lugares, trabalhei numa comunidade indígena, aprendi e ensinei dança popular por muito tempo. Sempre gostei de ouvir os aplausos, o som marcante dos maracás e do agogô pois sempre me davam uma outra energia, parecia que me conectava com um outro “eu” que nem eu mesma conhecia.
Cheguei ao final da sala, e encontro uma sacola grande e colorida tal qual era a sacola de figurinos do nosso grupo, ela estava vazia parecia me indicar que era para levá-la comigo e, foi o que fiz, recolhi tudo e quando cheguei na porta dei uma última olhada naquela sala, ela era a sala sete do bloco didático do Instituto de Educação Física e Esportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), essa tinha sido a sala que havia acontecido a recepção dos alunos que entraram naquele período 2010/1, jamais poderia esquecer daquele dia.
Abri meus olhos e voltei para meu labirinto. Agora com mais lembranças.
Resolvi refazer todo o percurso que havia feito, tinha que voltar e pegar algo que deixei no meio do caminho. Fui, guiada pela emoção de tudo que vivera naquele momento.
Enfim, cheguei. Voltei até a balança e o par de óculos. Não poderia deixá-los para trás eles faziam parte de mim, mas com um novo significado.
Peguei o par de óculos e coloquei nas minhas duas mãos e dei um sopro. E o meu pedido era que eles se desembaçassem, e foi o que aconteceu. Quem usar essa balança vai ter que olhar pelos olhos desse novo par de óculos. Fiz meu primeiro teste, a balança ganhou uma nova cor, ficou menor e mais educativa. Quem subir nela além de ser alertado do peso, será avaliado a altura e receberá uma frase de motivação para viver uma vida saudável.
Pronto, agora é só colocá-la dentro da sacola e sair em busca de algo que sinto estar próximo.
Caminhei bastante, mas encontrei. O meu baú. Agora é hora de colocar todas essas coisas dentro, uma por uma.
Foi o que fiz, quando ia colocar a última coisa parei e disse:
“Sou a junção de um caminho longo e cheio de saídas e entradas, mas sou mais, tudo aquilo que com um simples sopro consegui mudar, principalmente, o olhar. Muitas vezes quis olhar para esse caminho como algo desmembrado, aos moldes cartesianos mas fui apresentada aos moldes espinosianos e tive o prazer de saber que os afetos tanto me impulsionaram a agir como me fizeram cessar. Quando foram negativos me tornei apática, sem ação, me deixei levar, mas quando foram positivos quando geraram alegria eu construí, eu não temi, eu me encorajei, eu acreditei que poderia voar e ir mais alto cada vez mais”.
Eis que coloco o último objeto e fecho a tampa do baú, sem trancá-la para que eu possa retornar a hora que quiser.

Como um passe de mágica a linda borboleta que pousara no meu nariz horas antes, agora surgi e pousa em cima da tampa do baú, ao ponto de se fundir ao mesmo formando sua fechadura. 

[INTERAÇÃO] Memórias de Yvone Boaventura

"Eu me lembro das aulas de educação física tanto como um momento disciplinador. O colégio era de freiras somente para meninas, no qual devíamos seguir as ordens, os gestos e as orientações da professora, quanto um momento de lazer, descontração e interação com as colegas. Este ultimo era o momento dos jogos e das competições. Eu me lembro ainda que o dia da educação física era aquele em que devíamos acordar mais cedo, as aulas aconteciam antes do horário das demais aulas, a frequência era obrigatória e o controle rígido. Não sei se posso revelar, mas todas as meninas olhavam para o corpo da professora, nem tão esbelto e nem tão bem delineado e brincávamos entre nós, se fizermos as aulas como a professora determinava, ficaríamos com o corpo igual ao dela. Eu me lembro dos jogos, era o bets, vôlei, queimada."
Yvone Boaventura
Contato: Yboaventura16@hotmail.com













[INTERAÇÃO] Memórias de Elizabeth de Castro Silva

"Na época em que era criança (5° ano), vivenciava as aulas de Educação Física sob preconceitos, pois era uma menina gordinha e os alunos me apelidavam pejorativamente. Eu detestava. Um belo dia a professora fez um jogo de queimado e eu queimava bastante gente e toda vez ficava por último, geralmente a minha equipe vencia. À partir daí, a turma brigava para me ter na equipe. Então comecei a perceber que possuía bastante força e foi através desta descoberta que comecei a praticar esportes (natação, atletismo e voleibol) e me vi uma pessoa mais forte e valorizada pelo grupo, foi bastante difícil, mais superei."
Elizabeth de Castro Silva
Contato: bethmaceio@ig.com.br